terça-feira, 13 de junho de 2017

Noite de Veneza

Razetta: Ide aos vossos divertimentos e deixai-me.

Uma Voz de Mulher: Não! Desta vez apostei que havia de levar-te. Vamos, anda, cabeça doida, e não estragues o prazer de ninguém. Cada um por sua vez; ontem foi a tua; hoje passaste de moda. Quem não sabe conformar-se com a sua sorte é tão louco como um velho que queira passar por novo.

Outra Mulher: Vem, Razetta, nós é que somos os teus verdadeiros amigos. E não desesperamos de conseguir fazer-te esquecer a bela Lauretta. Basta-nos lembrar-te o que tu próprio dizias, alguns dias atrás; o que nos ensinaste. Não queiras perder esse título glorioso de primeiro vadio da cidade.

O Rapaz: Da Itália! Vem, nós vamos cear a casa da Camila. Verás que encontras lá a tua juventude, os teus velhos amigos, os teus velhos defeitos, a tua alegria. Queres matar o teu rival? Queres afogar-te? Deixa essas ideias, que só são dignas dos apaixonados vulgares. Lembra-te de ti próprio e não dês maus exemplos. Amanhã as mulheres de Veneza serão de todo inabordáveis, se esta noite correr a notícia de que Razetta se afogou. Vamos, repito-te, vem cear connosco.

Razetta: Está dito! Pudessem todas as loucuras dos amantes acabar tão alegremente como a minha!

[Alfred de Musset em Noite de Veneza]

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